hmmm


reflexões e reticências em degradê

leia aqui: fruto de reflexões das aulas da disciplina Literatura e mercado editorial, oferecida no segundo semestre de 2020 pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da UFSCar, estes posts ficarão disponíveis para leitura até 01/02/2021. Por favor, não copie nem reproduza os textos em outros lugares, em 2021 eles estarão disponíveis na aba "academiquês" do site vitoriadoretto.com


um fansign, uma heterotopia

Heterotopia é um outro lugar, que nos tira do comum... então um fanmeeting ou um fansign seria um lugar heterotópico?

um grupo de k-pop é um objeto editorial?

Sim, eu estou indo longe demais, mas juro que faz sentido (um texto sobre EXO, espaço canônico e espaço associado).


um pouco mais de espaço canônico e associado com EXO

Um texto principalmente sobre o espaço associado produzido pelo fandom.

um pouco sobre capital simbólico

Em mais um dos textos sobre o EXO, desta vez temos um pouco sobre capital simbólico e fandom.


ah as premiações...

Um texto sobre o duplo movimento de consagração nos prêmios.

"[said cutely]": interlíngua na tradução feita pelo fandom

Finalizando os textos sobre o EXO, desta vez faço uma breve reflexão sobre interlíngua e tradução


trechos que irão virar alguma coisa depois

então... eu tinha uma ideia (escrever um texto reflexivo sobre um certo livro e seu autor), mas as semanas foram passando e acabei mudando de ideia, então aqui você pode encontrar as postagens de algumas semanas com trechos e ideias que irão se transformar em outra coisa no futuro. as belezas das imprevisões da vida, não é mesmo?

um fansign, uma heterotopia


EXO, 06/09/2017 @ Dream Maker Ent.

Heterotopia é um tipo de lugar que nos tira da vida comum... então um fanmeeting e um fansign seriam lugares heterotópicos?

Vamos começar pelo começo: o que é uma heterotopia?

“[...] entre todos esses lugares que se distinguem uns dos outros, há os que são absolutamente diferentes: lugares que se opõem a todos os outros, destinados, de certo modo, a apagá-los, neutralizá-los ou purificá-los. São como que contraespaços.” (Foucault, 2013, p. 19-20)

Uma heterotopia é um espaço de suspensão da vida cotidiana, um lugar que existe, mas não existe (como assim? vou explicar), com ritos – práticas – cultivadas na sociedade e entendidas como um momento de suspensão do tempo. Ela consegue sobrepor no mesmo espaço, diversos outros espaços que, sozinhos, são incompatíveis.
Pensando nisso, podemos dizer que os eventos feitos pelas agências de entretenimento para os fãs de seus agenciados, neste caso os fanmeetings e fansigns, são heterotopias. Por quê? Vejamos – para exemplificar, usarei fanmeetings e fansigns do grupo sino-coreano EXO.
Um fanmeeting é, literalmente, um encontro de um grupo de fãs com um idol. Este é um tipo de evento que pode ser pequeno ou ter grandes proporções, a depender da ocasião (podem ser para comemorar o aniversário de algum integrante do grupo, ou o lançamento de um álbum, por exemplo). Geralmente é dividido em partes e o grupo pode fazer performances de músicas especiais, ou de músicas antigas que já não fazem parte dos setlists de seus shows, ou fazer brincadeiras entre os integrantes e responder perguntas dos fãs. São momentos de descontração e maior proximidade (sempre controlada) entre os idols e seu fandom.
Neste vídeo (com legenda em inglês) podemos ver o fanmeet completo (45 minutos) do EXO em 2015 num evento especial do KangShifu Iced Tea, na China. Neste caso, o fanmeet foi mediado pelo apresentador chinês contratado pela empresa de chá e os integrantes do grupo responderam diversas perguntas, participaram de “brincadeiras” usando o chá patrocinador e assistiram e reagiram a um vídeo especial feito com fãs.

Um fansign é um evento onde os ídolos assinam/autografam seus produtos para um grupo de fãs. Na Coreia do Sul, China e Japão, países onde o EXO regularmente participa de fansigns, os fãs só conseguem ir aos eventos se tiverem sorte (e muito dinheiro) – para participar, o fã deve comprar o álbum do grupo em lojas específicas, cada compra gera um número que, se sorteado pela organização do fansign, dará direito à participação (é por isso que sempre encontramos histórias de fã com compras exorbitantes para conseguir ser sorteado). Os avisos sobre fansigns e fanmeetings são feitos dentro da comunidade oficial de fãs do EXO no Lysn (um aplicativo que reúne as comunidades de fãs de todos os grupos gerenciados pela SM Entertainment, a empresa que gerencia o EXO) e possuem regras específicas – em alguns eventos apenas falantes de coreano podem participar (pela empresa não disponibilizar tradutores), por exemplo.
Neste vídeo (sem legenda) temos um trecho do fansign promovido pela loja Sinnara em 2017 para o lançamento do quarto álbum do grupo, The War (더 워). Com o foco nos integrantes (da esquerda para a direita) D.O. (de camiseta preta de manga curta) e Chanyeol (de manga comprida preta) e com algumas aparições de Kai (de camiseta de manga curta vinho), podemos observar brevemente os integrantes assinando os álbuns e interagindo com os fãs presentes.

Bem, depois da breve explicação sobre sua natureza, fica claro que um fanmeeting e um fansing são “recortes singulares do tempo" (Foucault, 2013, p. 25), que têm “um sistema de abertura e de fechamento que os isola em relação ao espaço circundante” (p.26) – esses eventos são fechados ao mundo exterior, onde só os iniciados, neste caso, os participantes do fandom sorteados (por terem comprado n unidades dos álbuns do grupo) podem participar. São eventos não raros, mas sazonais, que ocorrem em épocas específicas – como os aniversários dos integrantes –, mas que também podem não ocorrer por razões quaisquer. Nas suas poucas horas de duração, as fãs esquecem de suas vidas comuns e cotidianas e compartilham com outras fãs, pessoas estranhas, um espaço outro que não compartilhariam se não fosse um fanmeeting/fansing.

Por seu caráter breve, os fanmeetings e fansings são heterotopias crônicas, ligadas ao tempo, não de forma a perseguir a eternidade, mas de ser como uma festa, um evento fugaz. Como pode ser visto no vídeo anterior, as brincadeiras e interações com os idols não fazem parte da vida cotidiana das fãs e, até certa medida, podem ser encarados como vislumbres do comportamento que esses idols têm em seus espaços particulares – mas, se pensarmos que o grupo é um objeto editorial... talvez tenhamos que rever esta afirmação (não me deterei nisto neste momento, mas tentarei voltar ao assunto em breve) – representando assim a união de seus espaços com os das fãs que conseguem garantir seu lugar para participar.

Em tempo:
Com a pandemia, um dos integrantes do EXO, Suho, em razão de seu debut solo, realizou fanmeetings e fansings virtuais – inaugurando assim um novo tipo de eventos dessa categoria. Durante suas promoções de debut, o idol realizou um fanmeeting ao vivo e de graça no canal do grupo no VLive e algumas sessões de fanmeetings sorteados para compradores dos álbuns em lojas específicas (cada sorteado pode conversar com o Suho por cerca de dois minutos em chamada de vídeo e o cantor autografou um álbum a mais para cada participante) e essas práticas foram repetidas nos comebacks de outros integrantes do EXO ao longo deste ano de 2020 – Baekhyun, durante as promoções de Delight, e Sehun e Chanyeol, durante a promoção de 1 Billion Views (primeiro álbum completo da unit EXO-SC). Esse novo formato de fanmeeting nos põe o questionamento: o fanmeeting online é uma heterotopia? Creio que sim. Porque ainda que o idol esteja numa sala no prédio da sua empresa e a fã esteja sentada em seu quarto, nos dois minutos de ligação de vídeo, os dois estão em um outro lugar que não é nem a sala da empresa nem o quarto da fã, vivenciando uma realidade fora do seu cotidiano – a fã não conversa com o idol diariamente e o idol não tem esse contato direto e sem [muitas] interferências com a fã de forma corriqueira.
E isso me leva a pensar no Bubble (o serviço de mensagens pago entre idols e fãs), também, mas deixarei este tópico como uma reticência deste texto.

*Note que aqui, sempre que for falar sobre experiências de fãs, fandom, idols e assuntos relacionados, usarei como ponto de partida conteúdos relacionados ao grupo sino-coreano EXO. Para saber mais sobre o EXO, clique aqui.

Imagens deste texto:
Imagem do topo: EXO, 06/09/2017 – HotTracks + KTown4U mini fanmeeting @ Dream Maker Ent.
Última imagem: EXO, 06/09/2017 – HotTracks + KTown4U mini fanmeeting @ Dream Maker Ent.

Links deste texto:
Foucault – De Outros Espaços
Foucault – O corpo utópico, as heterotopias
Daily EXO (vídeos e imagens)

postado em 11 de setembro de 2020.

Um grupo de k-pop é um objeto editorial?


Paremos para pensar por um momento: todo grupo de k-pop, seja ele feminino ou masculino, grupo ou banda, passa anos (em muitos casos, vários anos) sendo preparado e treinado, no que se costumou chamar de porões das agências, para poder debutar e seus integrantes finalmente se tornarem idols queridos por centenas e ou milhares de pessoas. Bem, esta é, praticamente, a descrição do que é um objeto editorial – alguma coisa que é preparada para uma vida pública, para ser “compartilhado” publicamente. Então, posso considerar um grupo de k-pop um objeto editorial? Me parece que sim. Vejamos mais de perto neste texto.
Vamos manter em mente que entendo um objeto editorial como um objeto que é preparado para uma "vida" pública e que tem, necessariamente, três pontos que nos possibilitam sua identificação, sendo eles a interlocução (para quem é, qual é o interlocutor projetado – neste caso, qual o público projetado); a inscrição material (como ele se materializa, como é apresentado ao público); e a circulação (por onde/quais lugares ele circula). Tomemos, assim, o grupo sino-coreano EXO (no texto anterior avisei que sempre falaria deles, lembra?) como exemplo.
Com doze membros, o EXO debutou em 8 de abril de 2012 sob a tutela da SM Entertainment – a SM foi criada por Lee Soo-Man em fevereiro de 1995 e desenvolveu um sistema interno de produção de artistas, começando com os grupos H.O.T. em 1996, S.E.S. em 1997, Shinhwa em 1998, a dupla de R&B Fly to the Sky em 1999, e a solista BoA em 2000. Mas antes de falar de seu debut, me interessa falar do que aconteceu antes – do processo de “preparação do grupo para sua vida pública”.
Antes da estreia do grupo, os integrantes passaram por um treinamento sistemático na S.M. Entertainment – o líder do grupo, Suho (Kim Junmyeon), foi o primeiro integrante a entrar na agência e passou sete anos como trainee, os demais integrantes se juntaram à agência com o passar dos anos. Todos eles tiveram uma rotina exaustiva de treinos e ensaios (o que se mantém mesmo depois do debut). Vou falar um pouco sobre o período pré-debut de cada um dos integrantes daqui a pouco, mas primeiro preciso deixar claro que mesmo antes de debutar, um aspirante a artista assina um contrato com uma empresa para ser seu trainee.
As empresas da Coreia do Sul são conhecidas por criarem seus próprios talentos e selecionar o conceito, imagem e visão musical de cada artista. Este processo, geralmente, envolve um treinamento rigoroso para criar um idol ideal (em termos de corpo, personalidade e comportamento) que os fãs irão “venerar” e se espelhar (e, em muitos casos, também tratar como um produto – mas isso fica para outro momento).
Além de frequentar a escola, os trainees vivem nos dormitórios das agências, dividindo quartos e cotidiano com outros trainees – que se tornam seus amigos, mas também rivais. Esses jovens são submetidos a treinos diários durante o dia inteiro, até altas horas da noite, que incluem aulas de canto, dança e atuação, bem como aulas de educação física e inspeções de rotina de peso e controle diário da dieta – os trainees que não são sul-coreanos e não sabem falar coreano também fazem cursos do idioma. Vejamos um resumo do tempo como trainee dos integrantes atuais do EXO, um a um, para podermos continuar esta reflexão.

Kim Jong-In (KAI)
Kai juntou-se a SM Entertainment em 2007, com treze anos, depois de vencer o 10th S.M. Youth Best Contest. Viveu em um dormitório com outros trainees da SM e recebeu aulas de canto, dança e atuação. Participou do clipe da música "HaHaHa Song" do TVXQ em 2008, junto com Suho e Chanyeol. Desenvolveu seu conhecimento técnico de hip hop, popping e locking depois de entrar na SM Entertainment e se graduou na Escola de Artes Dramáticas de Seul em fevereiro de 2012. Jongin foi o primeiro membro do EXO a ser formalmente apresentado ao público em 23 de dezembro de 2011, sob o nome artístico Kai.

Kim Jong-dae (CHEN)
Juntou-se a SM Entertainment no início de 2011, aos 18 anos, após uma audição no S.M. Casting System. Após quatro meses como trainee, Chen foi formalmente apresentado como membro do EXO em 29 de dezembro de 2011. Em 2017 foi aprovado na Universidade Hanyang Cyber de Seul para completar seu MBA em Publicidade e Mídias.

Oh Se-hun
Foi descoberto por um agente de talentos quando tinha 12 anos de idade e entrou na SM Entertainment no SM Casting System em 2008. Em 2012, juntamente com Baekhyun, Chanyeol e Kai, apareceu no vídeo da música "Twinkle" do Girls' Generation-TTS. Em 17 de agosto de 2012 se apresentou como dançarino com a BoA, sua companheira de gravadora, no Music Bank durante a música "Only One". Foi apresentado como membro do EXO em 10 de janeiro de 2012.

Zhang Yixing (LAY)
Yixing estreou no showbiz como uma estrela infantil aos seis anos no drama chinês We The People em 1998. Fez o teste para a agência sul-coreana SM Entertainment em 2008, após uma audição bem-sucedida no sistema de fundição global da empresa em Changsha, sua cidade-natal. Na época das audições, tinha 16 anos e estava estudando para seus exames de admissão da faculdade. Foi colocado em um dormitório com outros trainees da SM na Coreia do Sul e foi treinado na área de canto, dança e atuação. De dezembro de 2010 a novembro de 2011, trabalhou ao lado do grupo SHINee em sua turnê como dançarino substituto de Jonghyun, sendo frequentemente referido como o sexto membro do grupo. Yixing foi formalmente introduzido como membro do EXO em 17 de janeiro de 2012, utilizando o nome artístico Lay.

Byun Baek-hyun
Baekhyun começou a treinar para ser um cantor quando tinha 11 anos. Frequentou a Jungwon High School em Bucheon, onde foi o vocalista da banda "Honsusangtae" e ganhou um prêmio em um festival de música local. Fez aulas de piano com Kim Hyun-woo, membro da banda de rock DickPunks. Além de atividades musicais, treinou Hapkido, atingindo a faixa preta. Baekhyun foi descoberto por um agente da SM Entertainment enquanto estudava para os exames de admissão para o Seoul Institute of the Arts e se juntou à agência pelo S.M. Casting System em 2011. Em 2012 ingressou na Kyung Hee Cyber University recebendo aulas on-line no Departamento de Cultura e Administração de Artes. Foi apresentado como membro do EXO em 30 de janeiro de 2012.

Do Kyung-soo (D.O.)
Em 2010, depois de vencer um festival de canto, foi recrutado por um agente da SM Entertainment, que lhe recomendou fazer uma audição para a agência. Se tornou um trainee da SM durante os últimos dois anos do ensino médio. D.O. foi formalmente apresentado como membro do EXO em 30 de janeiro de 2012.

Kim Min-seok (XIUMIN)
Em 2008, Minseok conquistou o segundo lugar no "Everysing Contest" da S.M. Entertainment. Estudou na Catholic Kwandong University, onde ele participou de um seminário e fez uma apresentação para os estudantes em Música Aplicada – ele também estudou na mesma escola do Dongwoo do INFINITE. Aprendeu artes marciais e possui faixa preta em Kendo e Taekwondo, além de também ter treinado Wushu e Esgrima. Xiumin foi revelado como integrante do EXO em janeiro de 2012.

Kim Jun-myeon (SUHO)
Tornou-se trainee da SM Entertainment no S.M. Casting System de 2006, quando tinha 16 anos, depois de ser descoberto nas ruas por um manager de casting da SM. Em julho de 2007 apareceu como um personagem de apoio no filme do Super Junior, Attack on the Pin-Up Boys. Em 2008 participou do clipe de "HaHaHa Song" do TVXQ. Em 2009 começou a frequentar a Universidade Nacional de Artes da Coreia, no entanto, interrompeu o curso em 2011 e continuou seu ensino na Kyung Hee Cyber University, onde teve aulas no Departamento de Cultura e Arte da Administração de Empresas. Suho foi apresentado como membro do grupo EXO em 15 de fevereiro de 2012.

Park Chan-yeol
No primeiro ano do ensino médio, Chanyeol formou uma banda com seus melhores amigos, a Heavy Noise, tendo tocado nela durante três anos. Com dezesseis anos foi aceito em uma universidade privada de atuação. No mesmo ano alcançou a segunda posição Smart Model Contest e tornou-se trainee da S.M. Entertainment. Em 2008 participou do clipe de "HaHaHa Song" do grupo TVXQ. Em 2009 participou da versão japonesa do clipe de "Genie” do grupo Girls' Generation. Foi um estudante com especialização em Cultura e Gestão da Arte na Kyung Hee do Cyber University. Em 22 de fevereiro de 2012, Chanyeol foi oficialmente introduzido como um dos integrantes do EXO.

Bem, se tempo de trainee é o momento de preparação, modelação, refinamento dos artistas para se tornarem idols e serem apresentados ao público, as definições de sua interlocução, inscrição material e circulação são determinadas e escolhidas de acordo com o conceito e as tendências do mercado que o grupo seguirá – e tudo isso é levado em conta quando a empresa começa a planejar a estreia de seu próximo grupo. Vejamos um pouco mais da história do EXO para que eu possa apontar para você esses três pontos.
Em janeiro de 2011, o fundador da S.M. Entertainment, Lee Soo-man, anunciou que debutaria um novo grupo masculino em março ou abril do mesmo ano. Em maio, Soo-man falou sobre o grupo em um seminário empresarial da Hallyu realizado na Universidade de Stanford, explicando sua estratégia de separá-lo em dois subgrupos, M1 e M2, que promoveriam as mesmas músicas na Coreia do Sul e na China, em coreano e mandarim. Ele planejava estreá-lo em maio de 2011, porém, a estreia foi adiada para 2012.
Em dezembro de 2011 o grupo foi oficialmente apresentado como EXO — nome retirado de exoplanet, termo que se refere à planetas fora do Sistema Solar e que se relaciona com o conceito do grupo, apresentado na introdução do clipe de MAMA, garotos que vieram de outro planeta e que possuem poderes especiais — com o nome EXO-K para o subgrupo sul-coreano e EXO-M para o subgrupo chinês. Os doze membros da formação original (Xiumin, Suho, D.O., Chen, Chanyeol, Lay, Baekhyun, Tao, Kris, Luhan, Kai e Sehun) foram introduzidos individualmente em vinte e três teasers lançados de dezembro de 2011 a fevereiro de 2012. Kai, Luhan, Tao e Chen foram os primeiros membros a serem apresentados no evento da SBS Gayo Daejun em 29 de dezembro de 2011.
Em 30 de janeiro de 2012, os subgrupos lançaram "What Is Love" (em coreano e mandarim), seus primeiros singles promocionais. Em 9 de março, foi lançado o single promocional "History”. O show de estreia do grupo foi realizado no Estádio Olímpico de Seul em 31 de março, cem dias após o lançamento de seu primeiro teaser em 21 de dezembro de 2011 – cerca de três mil pessoas entre oito mil candidatos foram selecionadas para participarem. Um segundo concerto com conferência de imprensa foi realizado no Grande Salão da Universidade de Economia e Negócios Internacionais em Pequim, na China, em 1 de abril de 2012. A estreia oficial dos subgrupos ocorreu em 8 de abril com o lançamento do single "MAMA" do EP homônimo. EXO-K realizou sua apresentação de estreia na Coreia, no programa musical Inkigayo, enquanto o EXO-M a realizou na China, na décima segunda edição do Yinyue Fengyun Bang Awards.
Atualmente, o EXO é composto por nove membros: Xiumin, Suho, Lay, Baekhyun, Chen, Chanyeol, D.O., Kai, e Sehun. Sua formação original também incluía Luhan, Kris e Tao, que saíram após abrirem processos contra a S.M. Entertainment. Descrito como "a maior boyband do mundo" pela Dazed e Vogue, é o grupo com o maior número de Daesangs (prêmios) da história.
Depois desta breve descrição, fica mais fácil identificar sua interlocução – o público, interlocutor projetado –, inscrição material – como é apresentado a esse interlocutor projetado – e circulação – por onde circula.
Seu interlocutor projetado abrange os consumidores de música pop coreana (principalmente a parte feminina desses consumidores), como os que participam dos shows de outros grupos masculinos (como TVXQ, Super Junior e SHINee) e femininos (como o Girls Generation). Também foi por isso que os integrantes do grupo fizeram participações em clipes e programas especiais dos outros grupos da SM. Sua inscrição material, ou seja, como se mostra ao público, envolve os figurinos trabalhados de acordo com o conceito do debut, as maquiagens destacando as feições de cada integrante, os penteados de cada um, mas também seu tipo físico e as dietas e exercícios que são feitos para moldar o corpo. Finalmente, sua circulação envolve os clipes feitos antes do debut, as apresentações de pré-debut, os programas participados durante o debut, mas também os diversos vídeos promocionais espalhados em diversas lojas e outdoors pelas cidades sul-coreanas, os artigos no Naver (uma espécie de Google sul-coreana), e todos os lugares que alcançaram o público que se tornou parte de seu fandom.
Nisto também podemos falar em espaço associado e canônico do EXO. Segundo Maingueneau (2006), o espaço canônico é o material que pode ser entendido como primeiro, a fonte, o material linguístico que será retomado diversas vezes e o espaço associado, todas as retomadas do material original, ou seja, o que é produzido sobre ou a partir dele – artigos de revista, fancams, fanarts, fanfics, photoshoots, fansites etc. O espaço associado pode variar de acordo com o espaço canônico e um “se alimenta” do outro, ainda que não tenham a mesma natureza. Além disso, a fronteira entre um e outro é impossível de se definir porque é renegociada a cada posicionamento.

“O ‘espaço associado’ não é um espaço contingente que se somaria a partir de fora ao espaço canônico: os espaços canônico e associado alimentam-se um do outro, sem contudo possuir a mesma natureza. Esse duplo espaço se mostra a si mesmo no conjunto mais amplo de marcas deixadas pelo autor, o que inclui também os cadernos escolares, a correspondência amorosa, cartas dirigidas à administração e etc. (Mangueneau, 2006, p. 144).

Quando nos voltamos ao EXO, podemos dizer que seu “conteúdo” principal (o que será retomado e por isso consideramos como espaço canônico), são suas músicas, clipes e álbuns, mas o grupo só é bem-sucedido (como a quantidade de Daesangs e sua popularidade no país indicam) porque é lembrado não só pelos fãs (porque, em tese, esse é o “trabalho” deles), mas pelo público em geral, o que só é alcançado com aparições em programas de rádio, de entretenimento televisivo (como Knowing Brothers), com reality shows (como o Travel The World on EXO's Ladder), participação em dramas (as “novelas” sul-coreanas), como EXO Next Door, 100 days my prince e Memories of Alhambra, peças teatrais e filmes, participação em trilhas sonoras de dramas e nos mais diversos anúncios publicitários que formam seu espaço associado. É nessa conjugação de espaço canônico e associado que um grupo de kpop se torna, finalmente, um grupo de idols.

Imagem deste texto:
SM Entertainment – EXO-K Weibo

Texto deste texto:
Maingueneau, Dominique. Discurso literário. Tradução de Adail Sobral. São Paulo: Contexto, 2006.

Links deste texto:
SM Entertainment
EXO
EXO
postado em 20 de setembro de 2020.

um pouco mais de espaço canônico e associado com EXO


Terminei o post anterior sobre o EXO como um objeto editorial falando que “podemos dizer que seu ‘conteúdo’ principal – o que será retomado, e por isso consideramos como espaço canônico – são suas músicas, clipes e álbuns, mas o grupo só é bem-sucedido (como a quantidade de Daesangs e sua popularidade no país indicam) porque é lembrado não só pelos fãs (porque, em tese, este é o ‘trabalho’ deles), mas pelo público em geral, o que só é alcançado com aparições em programas de rádio, de entretenimento televisivo (como Knowing Brothers), com reality shows (como o Travel The World on EXO's Ladder), participação em dramas (as ‘novelas’ sul-coreanas), como EXO Next Door, 100 days my prince e Memories of Alhambra, peças teatrais e filmes, participação em trilhas sonoras de dramas e nos mais diversos anúncios publicitários que formam seu espaço associado. É nesta conjugação de espaço canônico e associado que um grupo de kpop se torna, finalmente, um grupo de idols”. Desta vez, me deterei um pouco mais nesta conjugação de espaço canônico e associado, considerando as promoções e atividades oficiais do EXO como seu espaço canônico e as produções dos fãs como espaço associado. Me parece importante tratar das produções dos fãs por um motivo bastante simples: são eles os consumidores tanto dos conteúdos “primeiros” – oficiais, majoritariamente pagos e intermediados pela SM Entertainment – quanto dos conteúdos de terceiros – feitos por marcas patrocinadoras, lojas, programas de entretenimento, dramas e pelos próprios fãs.
Ainda que haja muito a ser dito sobre o conteúdo produzido pelas marcas em que os integrantes do grupo são embaixadores (por exemplo, Kai e Gucci, Chanyeol e Prada, Baekhyun e Burberry, Lay e Valentino, Sehun e Dior Men) e que lhes imprimem certos sentidos e valores, há ainda mais produções de fãs. No vasto mundo do fandom encontramos uma imensidade de fanarts, fanfics, fanconcerts, fanmades e tantos outros projetos, produtos e produções que enumerá-los se torna uma tarefa árdua – por exemplo, se abrirmos hoje, 10 de outubro de 2020, às 10h34 da manhã, o Archieve of Our Own, também conhecido como AO3, encontraremos 37012 fanfics na tag “EXO (Band)”. Por isso, vamos nos atentar para um recorte do fandom do EXO, conhecido como EXOL – e aqui vai um pouco mais de cultura exol para você: o fandom ganhou este nome depois que Suho, líder do grupo, disse que as fãs eram L (de love, o amor do EXO), e ficam entre K e M (talvez você não se lembre, mas no conceito inicial do EXO tínhamos duas units, EXO-K e EXO-M) – que se dedica a fazer ações que reflitam de forma positiva nos membros e no grupo como um todo.
Mas antes, vamos esclarecer alguns termos:
Fã: Pessoa que se identifica/gosta com alguma história, banda, ator, ad infinitum. Está relacionado ao nosso instinto de urgência em se conectar um com o outro e com si mesmo, enterrado tão profundamente em nossos cérebros que fazemos sem perceber – procuramos fragmentos de cultura que possam nos ajudar a nos tornarmos uma versão “melhor” de nós mesmos (Fraade-Blanar e Glazer, 2018).
Fandom: se refere às estruturas e práticas que se formam em torno de peças de cultura popular. O fandom é pré-digital, mas a internet possibilita que os fãs tenham cada vez acesso mais fácil e frequente às coisas que gostam. Suas atividades envolvem criação de conteúdo, evangelização e liderança a serviço do objeto de fã (Fraade-Blanar e Glazer, 2018).
EXOL: nome do fandom do EXO, mas os fãs também podem ser subdividido em ~grupos~ para cada integrantes, assim temos: elsas (fãs do Xiumin), dandanies (fãs do D.O.), erigoms (fãs do Kai), yeolmaes (fãs do Chanyeol), soondingies (fãs do Chen), shiners (fãs do Baekhyun), xunqis (fãs do Sehun), xingmis ou xbacks (fãs do Lay) e bunny citizens (fãs do Suho) – esses nomes se relacionam aos poderes de cada integrante ou aos animais que são seus favoritos/os representam.
Quando falamos em fã e fandom, o senso comum tem a imagem de garotas adolescentes gritando histericamente para ver alguma celebridade. Ainda que uma parte (algumas vezes significativa) dos fandoms seja composta por adolescentes, o fandom possui mais camadas do que esta (no exol encontramos adolescentes, que acabaram de descobrir o grupo, e adultos, que “dedicaram sua juventude ao EXO” e continuam a apoiar o grupo enquanto trabalham e estudam, mas também pessoas mais velhas, que acompanharam outros trabalhos dos integrantes e acabaram se envolvendo no fandom). Há, por exemplo, a parte de pessoas que se dedica a criar artes (fanarts) e textos (wikis, fanfics, AUs) sobre o grupo e seus integrantes de forma gratuita, há a parte que estuda seu objeto de fã e pesquisa academicamente sobre algum de seus aspectos, outra que se dedica a criar produtos e artes dos e sobre os integrantes (chaveiros, canecas, roupas, bolsas, livros, revistas, itens de papelaria etc.) para reverter parte dos lucros para compras de produtos oficiais (álbuns físicos e digitais, passes em plataformas de música etc.) e também há uma parte que se dedica a levantar quantias em dinheiro e fazer doações ou plantar florestas – é claro que não podemos fazer divisões bem marcadas destas “partes” do fandom, pois, um indivíduo pode tanto fazer produtos fanmades quanto consumir fanfics, comprar outros fanmades, participar de arrecadações etc.
Se podemos considerar que uma fanart pode ser a porta de entrada para um fandom, a notícia da plantação de uma floresta em nome de um artista também pode ser o ponto de curiosidade que leva alguém a buscar o nome do idol ou grupo. O exol tem várias divisões, principalmente regionais, mas os projetos de arrecadação de fundos para doações são práticas comuns e seus resultados são significativos. Separei três exemplos recentes:
Em 2019, pelo terceiro ano consecutivo, a Chen Bar (fã-clube chinês do Chen) recebeu a medalha de “This Year’s Model Celebrity Fanclub” por ter plantado três florestas para o Chen (Chen Forests) inclusive na Mongólia Interior, região de deserto severo – neste ano eles plantaram a quarta floresta, com 5000 árvores (veja mais aqui).Em agosto deste ano, fanbases indianas se uniram e colaboraram com a Small Wish International, uma organização sem fins lucrativos que trabalha para a diminuição da pobreza, o empoderamento das mulheres e a preservação do meio ambiente, para arrecadar fundos e alimentos para as vítimas das enchentes em Assam (saiba mais aqui).No final de setembro deste ano, várias fanbases brasileiras se uniram para lançar o #EXOLsSupportPantanal, um fundo de arrecadação para ajudar a Brigada Alto Pantanal (saiba mais aqui), que está recebendo doações para criar duas equipes permanentes de brigadistas para atuar de forma preventiva e no combate direto aos incêndios no Pantanal entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Estes são exemplos de produções de espaço associado ao EXO – que os integrantes podem nem ficar sabendo – que, além de terem resultados que ajudam o meio ambiente e a população local do fandom, influênciam diretamente na imagem e valor (simbólico e econômico) do grupo – e, sem dúvida, também na brand reputation, que considera, entre outros fatores, as menções aos idols nas redes sociais e artigos. Estes projetos criam o que Thompson (2013), ao tratar dos livros que podem ser importantes, chama de burburinho:
“Burburinho é uma elocução performativa, um tipo de ato de fala que é uma característica geral no campo de publicações comerciais (e também de outras indústrias de criação). Sendo uma elocução performativa no campo de publicações comerciais, podemos dar-lhe uma definição precisa: burburinho é conversa sobre livros que podem ser importantes.” (Thompson, 2013, p. 211)
As ações do fandom geram artigos em jornais e nas redes sociais, burburinho, conversas sobre o grupo e sobre como seus integrantes, ao fazerem doações e trabalhos voluntários, inspiram os fãs a fazerem ações sociais e doações – mais uma vez conjugando espaço canônico e associado, pois, o que o fandom faz pode (e muitas vezes é o caso) influenciar diretamente o grupo e a visão que o público de forma geral tem dele.

Imagem deste texto:
첸바 KIM JONGDAE BAR @JongdaeBar - 2020

Textos deste texto:
Fraade-Blanar, Zoe; Glazer, Aaron M. Superfandom: como nossas obsessões estão mudando o que compramos e quem somos. Tradução de Guilherme Kroll. Rio de Janeiro: Anfiteatro, 2018.
Thompson, John B. Mercadores de Cultura. Tradução de Alzira Allegro. São Paulo: Editora Unesp, 2013.

Links deste texto:
EXO on AO3

postado em 10 de outubro de 2020.

um pouco sobre capital simbólico


Eu tinha uma ideia um pouco diferente do que gostaria de escrever neste post, mas participei da FSNNA20 na última semana e muito do que foi discutido em suas plenárias, pôsteres e demais espaços de discussão, conversa e troca, acabou me direcionando para o que temos aqui.
Crystal Abidin na plenária “K-pop: Fandom, Politics, Digital Influence” durante a FSNNA20 usou o termo “metric culture” para falar do engajamento dos fãs principalmente nas redes sociais (que é, de forma bem resumida, o tema que ela pesquisa) e tenho a impressão de que este conceito se relaciona, no contexto da indústria do k-pop e na esteira do que tenho escrito aqui, com o que entendemos como capital simbólico, ou seja, o status e prestígio que o grupo acumula – e, obviamente, com o capital econômico, seus recursos financeiros.
Abidin e Baudinette têm um trecho bastante explicativo sobre a ação do fandom para aumentar sua visibilidade – e, consequentemente, seu capital simbólico:
“K-pop fans, understanding themselves as the primary advocates of idols, undertake numerous projects designed to both support their favorite bands and raise their visibility both on- and offline. Fans mobilize their considerable social media networks to organize targeted support projects in dedicated schedules, and conscientiously trace intended outcomes in informal metric reports for the fandom. K-pop fandom initiatives are usually informed by vernacular and folkloric understandings of how platforms and algorithms work, and driven by research and datafication (there is an entire YouTube channel with over 600,000 subscribers dedicated to studying the line distribution among idols of various groups, surveying the breakdown of how much of each song is sung by specific singers in a group), and presented via catchy infographics to persuade fandoms to take action.” (Abidin; Baudinette, 2020, grifo meu)
É uma prática comum no fandom exol fazer mutirões para melhorar a posição dos membros do grupo no “Brand Reputation Ranking” (o ranqueamento de reputação sul-coreano dos idols, atores e demais celebridades) – geralmente esses mutirões incluem curtir, comentar e compartilhar posts sobre os integrantes no Naver (o portal de busca, blog e rede social sul-coreano), mencionar os nomes artísticos em tuítes etc. O posicionamento dos idols nesses ranqueamentos refletem diretamente em suas participações em campanhas publicitárias e em parcerias com marcas de luxo. Para citar alguns exemplo, Baekhyun constantemente fica entre os cinco primeiros do ranqueamento de celebridades masculinas e sua imagem é muito valorizada por marcas e empresas como TirTir, Burberry e Privé Alliance; Kai também constantemente é encontrado entre os dez primeiros no ranqueamento e é embaixador global da Gucci e primeiro modelo masculino da Bobby Brown. Mas o ranqueamento não é apenas para os integrantes, o grupo também participa de ranqueamentos de popularidade, medido principalmente por menções nas redes sociais e visitas em páginas específicas – para esses ranqueamentos também são feitos mutirões, mas a prática de menção do user do grupo é constantemente reforçada por contas grandes de fãs ou por contas de fanbases.

**Este post ficou um pouco menor do que o previsto (perdoe esta pessoa que passou a semana assistindo muitos painéis e ainda está cansada com as mudanças de fuso horário para acompanhar tudo), mas pretendo voltar aqui para finalizar esta reflexão quando atualizar o texto sobre paratopia no próximo final de semana.

Imagem deste texto:
Kai Rhapsody @ Twitter

Textos deste texto:
Abidin, Crystal; Baudinette, Thomas. The Civic Hijinks of K-pop’s Super Fans. Data & Society: Points. Postado em 1 de julho de 2020. Disponível aqui.
Thompson, John B. Mercadores de Cultura. Tradução de Alzira Allegro. São Paulo: Editora Unesp, 2013.

postado em 18 de outubro de 2020.

ah as premiações...


Ainda que o fandom tenha diminuído sua participação em (tudo) premiações, a temporada de votações está aberta para o exo-l – na verdade essa temporada não fechou em nenhum momento, pois os centenas de componentes do fandom que se dispuseram, participaram de votações para diversas premiações (de popularidade, melhor ator, celebridade do mês, melhor cantor de trilha sonora etc. etc. etc.) ao longo de todo o ano, mas as premiações de final de ano são mais expressivamente divulgadas pelas muitas fanbases para encerrar de forma feliz um ano cheio de trabalho.
Assim como um Jabuti e demais premiações literárias, os prêmios na indústria musical (do entretenimento como um todo, na verdade) são importantes para consagrar e conferir algum grau de visibilidade (Dacome, 2018) para os grupos indicados e premiados, mas também para manter e ampliar essa consagração para outras comunidades.
Neste ano o EXO não teve comeback, ou seja, o grupo não lançou nenhuma música nova num mini-álbum ou álbum completo nem divulgou um videoclipe novo, principalmente porque quatro (Xiumin, D.O., Suho e Chen) dos oito integrantes sul-coreanos estão cumprindo o período de alistamento militar obrigatório (Lay, o integrante chinês, não irá para o exército sul-coreano, obviamente, mas não está participando das promoções com o grupo há vários meses por questões políticas entre China e Coreia do Sul – atualmente ele está ativo na China, dando prosseguimento a sua carreira como solista, participando de programas de variedade na televisão chinesa e promovendo testes para agenciamento de adolescentes que queiram ser trainees, e futuramente idols, na empresa que fundou recentemente). Mas isso não quer dizer que o exo-l ficou sem conteúdo: os integrantes que debutaram como solistas lançaram muita música nos últimos meses – Chen participou de uma das faixas do DinamicDuo, lançou uma faixa para a trilha sonora de drama e deixou um single de presente antes do alistamento; Baekhyun teve comeback com seu segundo mini-álbum como solista, Delight, e lançou algumas faixas para trilhas sonoras de dramas; Suho debutou como solista com o mini-ábum Self-Portrait e lançou single para trilha sonora de drama (que ele também participou como ator); Chanyeol, que ainda não debutou como solista, participou de várias músicas de outros cantores, incluindo Anbu, faixa de Lee Sunhee, uma das maiores cantoras sul-coreanas, lançou singles para trilhas sonoras de dramas e participou do Heart4U, programa especial da SM C&C; a unit de Sehun e Chanyeol, EXO-SC, teve comeback com o primeiro álbum completo 1 Billion Views; e Kai está às vésperas de seu debut como solista com o mini-álbum KAI (开) (além disso, Baekhyun e Kai participam do SuperM, um grupo que é formado com integrantes de outros grupos famosos da SM, que também teve comeback com seu primeiro álbum completo). Esta situação se refletiu nas indicações aos prêmios deste ano, pois os solistas tiveram o período de promoção (ainda que curto) de seus álbuns e sua popularidade cresceu, o que me leva a falar um pouco dessa relação entre premiação e capital simbólico, que, não coincidentemente, foi o tema da reflexão anterior postada aqui – no 2020 Mnet Asian Music Awards (MAMA) e Melon 2020 Music Awards (MMA), por exemplo, o EXO foi lembrado em Escolha dos fãs e Melhor Grupo Masculino e Baekhyun, como solista, aparece em diversas indicações (Melhor Artista Masculino, Melhor Performance Vocal Solo, Melhor Colaboração, Gravação do Ano, Artista do Ano) e Suho foi indicado ao Interpark’s 2020 Best Albums.
Por uma questão de melhor encadeamento dos posts que tenho feito aqui, desta vez usarei Baekhyun e seu segundo mini-álbum como exemplo. As vendas de seu álbum ultrapassaram a marca do um milhão – um fato que não ocorria com um artista solista desde 2000, quando a indústria musical começou sua transição para o digital com o streaming, conforme lembra Chris Lee, CEO da SM Entertainment, em sua conferência “Culture Technology Shining in the Non Contact Era” durante o COMEUP 2020, festival global de startups (da/na indústria tecnológica) –, o que não só elevou seu capital simbólico, como também atraiu atenção das organizações das premiações. Com isso eu não estou falando que suas indicações ocorreram porque seu número de vendas foi expressivo, não, estou falando que há sim, além da sua qualidade vocal, um interesse das premiações em ganhar valor simbólico com as indicações que faz (é um movimento duplo, mas irei explicar melhor).
Um fã não irá prestar atenção neste aspecto, irá votar porque ama, apoia, dedica tempo e energia ao idol e sua carreira e sabe que, quanto mais prêmios o artista tiver, maior será sua popularidade e assiduidade em programas de variedades e materiais promocionais de marcas (de roupa, cosmético etc.) – olha lá o capital simbólico de novo –, mas se pararmos para pensar nas instâncias de consagração, com os prêmios sendo uma parte delas, me parece que faz sentido dedicar alguns minutos de reflexão sobre o que percebo ser um movimento duplo no campo do k-pop, estabelecido como um recorte no campo musical – vale lembrar que “para que se criem instâncias de consagração [...] é preciso que o campo literário* se apresente como relativamente autônomo ou em vias de autonomização. Quanto a essa autonomia, Bourdieu diz ser necessário o estabelecimento de três medidas: existência de um grupo de produtores especializados; existência de um mercado e o consequente surgimento das então instâncias de consagração” (Dacome, 2018).
Não se pode negar que no funcionamento dos prêmios há trocas simbólicas entre artistas, consumidores, patronos e administradores da cultura (Dalcome, 2018) e por fazer parte de um campo, que é sempre relacional e um lugar de disputas por posição e permanência, oportuniza transações mútuas de prestígio – resumindo, uma premiação de k-pop confere visibilidade ao premiado (então o idol se beneficia) e ao mesmo tempo recebe um certo grau de visibilidade por ter laureado o idol (de forma que a premiação também se beneficia). Como dito anteriormente, é um movimento duplo.
As indicações que Baekhyun, o primeiro solista million seller em vinte anos-sócio da Privè-embaixador da TirTir-etc., recebeu levaram o fandom a participar das votações das premiações, ampliando seu alcance e capital simbólico (obviamente, as grandes premiações possuem capital simbólico, mas no caso de premiar este idol em questão, haverá a memória “da premiação que indicou e premiou o million seller”) e ao mesmo tempo legitimou ainda mais o idol – que neste ano, além dos diversos certificados de vendas na Coreia e China, também participou do painel sobre cultura e tecnologia do 2020 World Cultural Industry Forum (WCIF), alcançando outras comunidades que, se decidirem consumir os conteúdos do Baekhyun, terão como garantidas uma qualidade inquestionável. Neste caso, os dois lados ganham de alguma forma (talvez até mesmo nos casos em que ele não foi premiado).

Notas explicativas:
Xiumin e D.O. estão no final de seu período de serviço militar, o primeiro será dispensado em 06 de dezembro (mas já está em casa, usando o último período de férias do serviço militar, de forma que não será necessário voltar à base e, por causa das precauções com a pandemia, não haverá cerimônia de dispensa) e o segundo em de janeiro de 2021.Suho e Chen se alistaram neste ano. estou considerando que o campo musical também deve ser relativamente autônomo.
Imagem deste texto
「BAEKHYUN」@bbhperhour
best of 백현이 @bestof100hyun

Textos deste texto:
Dacome, Camila Mazi. O prestígio na literatura: um estudo do campo literário brasileiro através do Portugal Telecom. Dissertação de mestrado. São Paulo: EACH-USP, 2018.

postado em 21 de novembro de 2020.

atualizado em 25 de novembro de 2020.

"[said cutely]": interlíngua na tradução feita pelo fandom


Traduzir alguma coisa sempre é um desafio, seja porque a língua de chegada não possui termos que correspondam ao sentido dos termos usados no original ou por qualquer outra das inúmeras questões que aparecem ao longo do processo de tradução.
Maingueneau (2006, p. 182) diz que “o escritor não enfrenta a língua, mas uma interação entre línguas e usos, aquilo que denominamos interlíngua. Vamos entender por isso as relações que entretêm, numa dada conjuntura, as variedades da mesma língua, mas também entre essa língua e as outras, passadas ou contemporâneas. É a partir do jogo dessa heteroglossia profunda, dessa forma de ‘dialogismo’ (Bakhtin), que se pode instituir uma obra”. O mesmo acontece nas traduções – e nas traduções feitas pelo fandom, ou melhor, por contas no fandom –, a pessoa encarregada de traduzir um texto terá que não só traduzir as palavras, mas as interações e usos que esse texto evoca.
Neste ano alguns integrantes do EXO se juntaram ao Bubble, um serviço pago do Lysn (aplicativo que também é o local da comunidade oficial do EXO-L) em que o artista envia mensagens, vídeos, áudios e fotos diretamente para o celular do assinante, e as fanbases de diversos países passaram a também traduzir as mensagens enviadas – geralmente já há a tradução de outros conteúdos. Como essas mensagens são escritas em coreano, que possui palavras e formas de tratamento bastante específicos, diferente do inglês e português, ainda que haja tradução mecânica para inglês e outros idiomas diretamente no aplicativo (conforme mostrado na segunda imagem no topo deste texto), os tradutores-fãs precisam entender não só a ~dinâmica~ do coreano, mas descobrir como traduzir no texto em português (ou inglês) os detalhes que apenas certas partículas ou certas formas de escrita em coreano passam e não existem no idioma de chegada.
Tomemos como exemplo a sequência de mensagens apresentada nas três imagens usadas neste texto: a tradução automática da primeira mensagem é “The album is really pretty”, sua tradução feita pela fanbase INTL KAI é “The album is really pretty right, I put a lot of thought into it! (said cutely)” e sua tradução feita pela fanbse KAI BRASIL é “O álbum é muito bonito, certo? Eu prestei muita atenção nisso!”. Neste caso e nas demais mensagens da colagem desta postagem, a fanbase INTL, por não ter em inglês um termo modificado da forma que o idol usou em sua mensagem, precisa indicar entre parênteses que a frase não é simplesmente aquilo que está escrito, mas que há um tom “fofo” no texto – o mesmo acontece na fanbase brasileira, que neste caso, ao contrário do que faz normalmente, não incluiu o “escrito fofinho” no final (para ver um exemplo disso, clique aqui). Aqui podemos presenciar o movimento de transformação entre linguagens, tradições e culturas que Ribeiro indica estar envolvido na tradução:
“O ato tradutório consiste no movimento de transformação entre linguagens, tradições, culturas, tempo e espaço. É o trânsito entre escrever e transcrever, de ir além do que está registrado, de recuperar a história inserida entre as letras e sons que revelam um pensamento.
É a ação de transcriar discursos que transpassem os limites do concreto para atingir a imaginação, dentro dos parâmetros da similaridade. É percorrer as vias da analogia que produzem articulações entre a causa e o efeito.
Nesta altura, a tradução já se converteu numa transposição de caracteres que se caracterizam pela singularidade e contiguidade. Processo de concretização do que é fluido, mas preso por convenções elaboradas pelo pensamento humano.” (Ribeiro, 2020, p. 126)
Quando a fanbase indica o “said cutely” ou “escrito fofinho”, inscreve as mensagens na imagem que o idol tem no fandom – não vou entrar nisso aqui, mas isso daria uma boa conversa sobre ethos –, mas também transcreve variações da escrita em coreano que outros idiomas não conseguem atingir.

Imagem deste texto:
INTL KAI @INTLKAI - a conta foi suspensa depois de repostar um vídeo de uma plataforma paga em 26 de novembro.
@Lysn e eu mesma @vickydoretto (Lysn plmdds não derruba minha conta!)
KAI BRASIL @exokaibrasil

Textos deste texto:
Maingueneau, Dominique. Discurso Literário. São Paulo: Contexto, 2006.
Ribeiro, Josimar Gonçalvez. Tradução. In: Ribeiro, Ana Elisa; Cabral, Cléber Araújo (Org.). Tarefas da Edição. Belo Horizonte: Impressões de Minas; LED, 2020.](http://www.letras.bh.cefetmg.br/wp-content/uploads/sites/193/2019/10/Tarefas-da-Edic%CC%A7a%CC%83o-arquivo-digital-07-10-20.pdf)

escrito em 27 de novembro de 2020.
postado em 22 de novembro de 2020 (porque eu esqueci de postar antes).

trechos que irão virar alguma coisa depois


Este é o maior texto daqui (sério, de verdade, no final ele estará maior que os outros) e será atualizado uma semana sim, outra não, entre os textos que falam sobre o EXO como um objeto editorial, então lembre de voltar aqui para ver o que mudou.

então... eu tinha uma ideia (escrever um texto reflexivo sobre um certo livro e seu autor), mas as semanas foram passando e acabei mudando de ideia, então aqui você pode encontrar as postagens de algumas semanas com trechos e ideias que irão se transformar em outra coisa no futuro.

parte 1/3
Pedro Rhuas – para mim “o Pedro da Up!” – é jornalista, cantor, compositor, escritor e, em breve, autor-publicado-pela-Seguinte-selo-da-Companhia-das-Letras. E ser um escritor publicado, além de validar sua figura como escritor (Chieregatti já tratou do assunto de validação/valoração de escritores autopublicados que passam a ser publicados por editoras tradicionais, então não tratarei do assunto agora, mas lembremos que a adoração ao livro, como bem menciona Alberto Manguel em Uma História da Leitura (2012), é um dos alicerces da sociedade letrada como a que estamos), o coloca em um outro lugar, numa outra posição no campo literário. É principalmente disto que irei tratar neste ensaio – vou voltar a falar de heterotopia, espaço canônico e espaço associado, mas vou adicionar na mistura as noções de paratopia criadora, rede de aparelhos e campo, mas vou com calma (estou mudando de casa e todas as minhas anotações para este texto estão bem guardadas numa caixa lacrada).

Textos deste texto:
Chieregatti, Amanda Aparecida. Mídium e gestão dos espaços canônico e associado nas plataformas colaborativas Wattpad e Widbook. 2018. Dissertação (Mestrado em Linguística) - Universidade Federal de São Carlos, 2018.
Manguel, Alberto. Uma História da Leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

postado em 04 de outubro porque não tinha internet em 27 de setembro.

parte 2/3

sinopse de Enquanto eu não te encontro (edição independente, 2020)
2015. A vida de Lucas não poderia ser melhor: ele estuda na faculdade que sempre sonhou, divide casa com Eric, seu melhor amigo, e se mudou de Luna do Norte, a pequena e conservadora cidade do sertão potiguar onde nasceu. Só que sua rotina de gay recém-emancipado morando em Natal não é esse mar de rosas todo que ele fantasiou. Desastrado, cético e fã de Katy Perry, Lucas sofre por nunca ter conseguido se apaixonar e anda brigando com Eric desde que o amigo o trocou por Raul, seu novo namorado.

Quando uma boate chamada Titanic é inaugurada na Praia de Ponta Negra, Lucas e Eric acreditam que é a oportunidade perfeita para se reconectar. Juntos, os dois vão à festa preparados para se divertir como nunca. Lucas só não contava que essa noite reservasse uma surpresa... Uma surpresa que não só dará a ele exatamente o que mais procura, como também virará seu mundo de cabeça para baixo.

Leitura contraindicada para machistas, racistas, xenofóbicos e lgbtfóbicos de plantão.

postado em 28 de outubro de 2020..

parte 3/3

"São essas vozes, que se encontram nas margens do capo literário, cuja legitimidade para produzor literatura é permanentemente posta em questão. Essas vozes que tensionam, com a sua presença, nosso entendimento do que é (ou deve ser) o literário. É preciso aproveitar esse momento para refletir sobre nossos critérios de valoração, entender de onde eles vêm, por que se mantém de pé, a que e a quemm servem... Afinal, o significado do texto literário - bem como da própria crítica que a ele fazemos - se estabelece num fluxo em que tradições são seguidas, quebradas ou reconquistadas, e as formas de interpretação e apropriação do que se fala permanecem em aberto. Ignorar essa abertura é reforçar o papel da literatura como mecanismo de distinção e hierarquização social, deixando de lado suas potencialidades como discurso desestabilizador e contraditório." (Dalcastagnè, 2017, p. 12)

Texto desta atualização:
Dalcastagnè, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. 4. reimp. Vinhedo: Editora Horizonte, 2017.

postado em 31 de outubro de 2020.